Contos da Madrugada - Um dia de fúria
Tudo começara com uma dia qualquer. Porém, foi neste dia que ele descobriu que não havia solução, pois não havia conciliação entre ele e o mundo. O embate seria inevitável.
Decidido, ele resolveu que aquela era a hora, que não havia porquê de se postergar por mais anos e anos a fio aquela batalha. Sabia que estava na hora do enfrentamento entre ele e o mundo.
Também sabia que era uma luta perdida, pois o mundo era muito mais poderoso do que ele jamais sonhara em ser. Baseado nisso, traçou sua estratégia. Desferiria um golpe tão inesperado e grande, que, com alguma sorte, deixaria uma cicatriz no mundo. Era perfeitamente claro que, o mundo, ainda que apenas o seu mundo, quando contra-atacasse, seria esmagador.
Planejou seu ataque para o momento em que mais soldados inimigos estivessem reunidos, naqueles encontros em quase quase todo o mundo estava presente. Já havia pensado no que fazer: traria a tona tudo aquilo que ele mais odiava, que era a hipocrisia reinante entre aqueles.
Ah, a hipocrisia. Como ele a odiava. Sabia também que ele mesmo tratava-se de um hipócrita, mas esperava que antes do golpe final, estivesse livre de todas as mentiras acumuladas em sua vida. Aquela era a hora da revelação.
Seu plano foi implantado com pleno sucesso. Iniciou uma discussão tão generalizada que todas as mentiras foram expostas e dissecadas. Não havia mais nada a ser escondido. Todos haviam sido revelados. Todos tornaram-se íntimos, pois todos sabiam a verdade alheia.
Um sentimento de felicidade e regozijo encheu seu coração, e ele, finalmente sentia-se livre. Estava pronto para o golpe mortal que sofreria.
Porém nada poderia tê-lo preparado para o que estava por vir. O mundo, revirado e transtornado adotou uma simples solução. Todos, hipocritamente, inventaram novas mentiras para colocar no lugar das velhas. Tudo se assentou e a vida continuou em seu rítmo lento e regular.
Hoje, ele vive só, isoladamente dentro de si mesmo. Incapaz de esboçar qualquer reação.
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